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Teilhard de Chardin

O FENÓMENO HUMANO

COMPÊNDIO

 

Extractos da escolha de

J. S. .Abbatucci

(texto original francês tradução para português)

 

Os extractos que se seguem referem-se à Edição do Seuil, Colecção Essais. Reflectem a escolha do leitor (J. S. Abbatucci) e o valor desta selecção é completamente subjectivo. Escolhas diferentes poderiam ter sido feitas. Estes extractos são essencialmente um convite à leitura integral do texto original

O TEXTO É APRESENTADO NO ORIGINAL FRANCÊS DO LADO ESQUERDO E, DO LADO DIREITO, NA TRADUÇÃO PARA PORTUGUÊS DA EDIÇÃO DA "LIVRARIA TAVARES MARTINS", PORTO, DE 1965, COM REFERÊNCIA ÀS PÁGINAS DESTA EDIÇÃO. EMBORA HAJA ALI UM EXCERTO DO PREFÁCIO DA OBRA DA AUTORIA DO DOUTOR EM TEOLOGIA N. M. WILDIERS, PELO SEU GRANDE INTERESSE, APRESENTA-SE EM PRIMEIRO LUGAR AQUI A SUA TRADUÇÃO PORTUGUESA INTEGRAL, COMO INCLUÍDA NA CITADA EDIÇÃO DA TAVARES MARTINS.

PREFÁCIO

É normal que, ao cabo de uma vida de investigação científica, um sábio experimente o desejo de reunir a multiplicidade das suas observações e das suas considerações numa síntese harmoniosa, dando assim forma à visão do mundo que a pouco e pouco elaborara. Esta necessidade de síntese será tanto mais empolgante quanto mais íntima é a relação do objecto do seu estudo e da sua reflexão com o desenvolvimento geral da ciência ou com os grandes problemas da existência humana.

No decurso dos últimos anos, vários sábios de reputação mundial sentiram essa necessidade; saindo dos limites estreitos do seu próprio campo de trabalho, permanecendo embora na linha dos seus próprios estudos e pesquisas, empenharam-se em redigir as conclusões finais a que chegaram as suas meditações, testemunhando assim em favor da visão do mundo que amadurecera no seu espírito. Este género de escritos possui muitas vezes um alto valor humano e encontra geralmente uma vasta ressonância não só junto dos iniciados, mas também junto de um público que, frequentemente, não se acha em condições de seguir de perto a vida científica.

Pode ser que certos investigadores, prisioneiros de métodos de trabalho positivistas e estanhos às necessidades superiores do espírito humano, considerem semelhantes tentativas com certo desdém, sob o pretexto de que elas saem dos limites da ciência propriamente dita. Deve-se, sem dúvida, evitar com cuidado esta mescla arbitraria da ciência e da especulação filosófica. É, todavia, indispensável que o homem confronte sem cessar a sua concepção geral da vida com as descobertas da ciência e que, se possível, a enriqueça e aprofunde mediante novas contribuições. Seja como for, tempo virá em que o homem de ciência, por mais apegado que seja à sua própria especialidade e ao seu próprio método de trabalho, deverá estender a mão ao filósofo e, se é crente, ao teólogo.

Entre os sábios da nossa época que mais intensamente sentiram esta necessidade, ocupa incontestavelmente um lugar preeminente o Pe. Teilhard de Chardin. Enquanto geólogo e paleontólogo, ele consagrou o melhor de si próprio ao estudo dos problemas que se apresentavam no campo da sua especialidade ou que se lhe punham em consequência de novas descobertas. É inegável que, nestes domínios, adquiriu uma grande competência e alargou os nossos conhecimentos. Mas ao investigador científico de excepcional qualidade que ela era, aliava-se o pensador: ele não se contentava com observar e registar muito simplesmente os factos, queria também descobrir as suas mútuas relações e o seu sentido profundo. Mantendo embora o mais íntimo contacto com os fenómenos que se deparavam aos seus olhos de investigador, ele arquitectava lentamente, mas com uma nitidez e uma acuidade crescentes, esta visão do mundo que, pela sua profundidade, pelo seu poder de síntese e pela sua fecundidade para o desenvolvimento ulterior da cultura, iria revelar-se como uma das criações mais maravilhosas da nossa época.

Entre os numerosos ensaios elaborados em que ele quis, sob ângulos diferentes ou aspectos determinados, exprimir os seus pontos de vista sobre o acontecimento cósmico, O Fenómeno Humano ocupa um lugar importante e, sem dúvida, central, em razão não somente da sua extensão, mas também do seu alcance fundamental. Escreveu-o entre Junho de 1938 e Junho de 1940, portanto numa época em que a sua visão do mundo atingira já a plena maturidade; mais tarde, nomeadamente em 1947 e 1948, retocou-o e completou-o.

Ao ler esta obra, impressiona-nos sobretudo, se passamos por alto a originalidade e a audácia de certas concepções, o sentido profundo da totalidade de que o autor dá constantemente provas. Podemos encontrar, no presente ensaio, uma contribuição magistral para uma fenomenologia do cósmico, mas concebida como uma descrição profunda, tanto quanto objectiva, da totalidade cósmica tal como se lhe deparou. O Fenómeno Humano não é, pois, uma arquitectura abstracta do pensamento, elaborada como um todo completo graças a subtis raciocínios. Por maior que seja o poder dialéctico do autor, sente-se, ao ler estas páginas, que não é bem de uma argumentação que se trata, mas da transcrição de uma realidade que se lhe impôs com uma evidência quase ofuscante.

Todo o homem que se aperceba dos grandes problemas da hora não deixará de ver imediatamente a actualidade deste ensaio. As mais altas personalidades são concordes em dizer que é urgente, pelo menos no que respeita ao Homem, reunir numa sólida síntese a multiplicidade das nossas aquisições científicas. O próprio mundo religioso aspira a esta síntese que situará em plena luz a grandeza e a beleza da Criação . O espírito humano, com efeito, não pode contentar-se com uma ciência dividida e fragmentada até ao infinito.

Perfeitamente consciente da nossa necessidade primordial de unidade na visão do mundo, o Pe. Teilhard de Chardin esforçou-se - ele que, melhor do que ninguém, se achava preparado para tal tarefa - por elaborar esta síntese. Se as ideias aqui expostas se revelam exactas, não há dúvidas de que é preciso tê-las em conta para o progresso das ciências filosófica e teológica. É que, para o cristão, após a elaboração de uma visão completa do mundo, se põe outro problema de maior importância: o da síntese entre esta visão do mundo e os dados da fé. A partir de S. Tomás de Aquino, já nenhum filósofo contesta que, apesar de uma notável diferença de nível, haja uma harmonia interna entre a ordem natural e a ordem sobrenatural. Ao passo que na Idade Média esta concordância harmoniosa entre as duas ordens era, por assim dizer, evidente, para o homem da nossa época, apaixonado pelos progressos da ciência moderna, ela é, por diferentes razões, difícil de discernir. Não que o intelectual a ponha em dúvida, mas é que já não a vê, embora continue convencido da sua existência.

O Pe. Teilhard de Chardin fez desta segunda e mais vasta síntese, a do cristianismo e do conhecimento científico moderno, o objecto constante do seu estudo e da sua reflexão. Prosseguindo as suas investigações na linha da visão do mundo que, pouco a pouco, amadurecera no seu espírito, parecia-lhe cada vez mais evidente que o cristianismo, considerado na sua mais íntima essência, tal como surge sobretudo em S. Paulo nas epístolas do cativeiro, devia ser tido como o coroamento e a culminação de toda a evolução cósmica. Para Teilhard de Chardin, como para Paulo, Cristo é o eixo e o fim de todo o acontecimento do mundo, o ponto misterioso Ómega para o qual convergem todas as forças ascendentes, de modo que a criação inteira lhe aparece em função do Verbo Incarnado.

Não é agora a altura de me alongar sobre este aspecto crístico da sua obra. O Fenómeno Humano, que se mantém no terreno experimental, afasta de caso pensado todos os problemas teológicos.

Oxalá que este ensaio magistral, que rasga vastos horizontes e incita a ir mais longe na reflexão e na pesquisa, possa ajudar aqueles que, sensíveis à inquietação e à confusão do nosso tempo, procuram compreender melhor o sentido do mundo e da vida. Estamos convencidos de que ele será para muitos uma fonte de luz e de inspiração e que exercerá uma profunda influência sobre a nossa época.

N. M. WILDIERS

Doutor em Teologia

P.S. - Do ponto de vista da teologia, parece-me oportuno fazer as seguintes observações para o leitor católico não iniciado:

1. O autor abre a sua obra com uma Advertência que se reveste de uma importância capital para bem compreender o seu pensamento e o situar no plano em que é preciso encará-lo: trata-se apenas de uma descrição analítica da realidade cósmica tal como se depara aos olhos do sábio. Escusado será dizer que o autor supõe por toda a parte a presença de um Deus pessoal e criador, que provoca e dirige a Evolução do Mundo.

2. Nas páginas consagradas à origem do Homem, e que são, certamente, das mais interessantes, pode ser que alguns, insuficientemente informados do estado actual da ciência, sejam tentados a deduzir que o autor leva tão longe a continuidade da vida que já não se tem suficientemente em conta a distinção que existe entre o homem e o animal e, até porventura, que a intervenção de Deus na génese da alma humana se torna inútil. Mas uma leitura mais atenta fará ver como é falsa essa interpretação. É, com efeito, evidente que, através de toda a exposição deste problema, o autor quer pôr em realce «a descontinuidade do contínuo» e que a sua descrição fenomenológica deixa lugar bastante para os argumentos filosóficos ou teológicos que exigem uma intervenção divina. A título de prova, releia-se, em particular, a nota da pág. 174.

3. A propósito da questão do monogenismo, é preciso ainda ter em conta a diferença de planos em que se situam a ciência e a teologia. O autor coloca-se no da ciência, verificando embora que, dada a supressão inevitável das origens filéticas, esta não dispõe dos elementos necessários para decidir se a humanidade saiu de um só ou de vários casais humanos. Até mais amplas informações, cabe aqui uma argumentação - tal como a da Encíclica Humani Generis - que conclui pelo monogenismo (ver notas das pp. 196-198). É evidente que fica ainda muito de desconhecido, tanto no campo científico como no teológico, para que se prossiga o estudo.

 

PREFÁCIO

N.M. Wildiers, Doutor em Teologia

É normal que, ao cabo de uma vida de investigação cientifica, um sábio experimente o desejo de reunir a multiplicidade das suas observações e das suas considerações numa síntese harmoniosa, dando assim forma à visão do mundo que a pouco e pouco elaborara.

Pode ser que certos investigadores, prisioneiros de métodos de trabalho positivistas e estranhos às necessidades superiores do espírito humano, considerem semelhantes tentativas com certo desdém, sob pretexto de que elas saem dos limites da ciência propriamente dita.

Seja como for, tempo virá em que o homem de ciência, por mais apegado que seja à sua própria especialidade e ao seu próprio método de trabalho, deverá estender a mão ao filósofo e, se é crente, ao teólogo.

É que, para o cristão , após a elaboração de uma visão completa do mundo, se põe outro problema de maior importância: o da síntese entre esta visão do mundo e os dados da fé. A partir de S. Tomás de Aquino, já nenhum teólogo contesta que, apesar de uma notável diferença de nível, haja uma harmonia interna entre a ordem natural e a ordem sobrenatural.

Para Teilhard de Chardin, como para Paulo, Cristo é o eixo e o fim de todo o acontecimento do mundo, o ponto misterioso Ómega para o qual convergem todas as forças ascendentes, de modo que a criação inteira lhe aparece em função do Verbo Incarnado.

 

O FENÓMENO HUMANO

(Advertência +) Prólogo : Ver

p. 1 Para ser correctamente compreendido, o livro que aqui apresento tem de ser lido, não como uma obra de metafísica, muito menos ainda como uma espécie de ensaio teológico, mas única e exclusivamente como uma dissertação cientifica. ... Nada mais que o Fenómeno. Mas o Fenómeno inteiro.

p. 2 Como acontece aos meridianos ao aproximarem-se do pólo, a Ciência, a Filosofia e a Religião convergem necessariamente nas vizinhanças do Todo. Convergem, digo bem; mas sem se confundirem, e sem deixarem, até ao fim, de incidir sobre o Real, sob ângulos e em planos diferentes.

(Duas opções primordiais :)

p. 2 A primeira é a primazia concedida ao psíquico e ao Pensamento no Estofo do Universo ... E a segunda é o valor «biológico» atribuído ao Facto Social à nossa volta.

p. 9 O Homem não pode ver-se completamente fora da Humanidade; nem Humanidade fora da Vida; nem a Vida fora do Universo. ...

... a Pré-Vida, a Vida, o Pensamento, - três acontecimentos que desenham no Passado e determinam para o Futuro (a Sobrevida !) uma só e única trajectória: a curva do Fenómeno Humano. ... (numa) perspectiva homogénea e coerente da nossa experiência geral extensiva ao Homem. Um conjunto que se desdobra.

p. 10 Chegou o momento de reconhecer que uma interpretação, mesmo positivista, do Universo deve, para ser satisfatória, abranger tanto o «dentro» como o «fora» das coisas - tanto o Espírito como a matéria. A verdadeira Física é aquela que conseguir um dia integrar o Homem total numa representação coerente do mundo.

p. 11 O Homem, não centro estático do Mundo - como ele julgou durante muito tempo; mas eixo e flecha da Evolução - o que é muito mais belo.

A Pré-Vida

O ESTOFO DO UNIVERSO

p. 15 Deslocar um objecto para trás no Passado equivale a reduzi-lo aos seus mais simples elementos. Seguidas tão longo quanto possível na direcção das suas origens, as ultimas fibras do composto humano vão confundir-se aos nossos olhos com o próprio Estofo do Universo.

1 - A Matéria Elementar

p. 16 Pluralidade, unidade, energia: as três faces da Matéria.

- Pluralidade:

p. 17 Passado um certo grau de profundidade e de diluição, as mais familiares propriedades dos nossos corpos (luz, cor, calor, impenetrabilidade...) perdem todo o sentido ... Vertiginoso em número e em pequenez, o substrato do Universo tangível vai-se desagregando sem limites para baixo.

- Unidade:

p. 17 Ora, quanto mais clivamos e pulverizamos artificialmente a Matéria, mais esta nos deixa ver a sua fundamental unidade.

Unidade de homogeneidade

p. 18 Como se o estofo [do Universo] se reduzisse a uma simples e única forma de substância... ...Acharíamos natural que se atribuísse aos corpúsculos cósmicos um raio de acção individual tão limitado como as suas próprias dimensões. Ora torna-se evidente, pelo contrário, que cada um deles só é definível em função da sua influência sobre tudo o que está à sua volta. Qualquer que seja o espaço no qual o supúnhamos colocado, cada elemento cósmico preenche inteiramente este mesmo volume com a sua irradiação. Por mais estreitamente conscrito, pois, que seja o «âmago» de um átomo, o seu domínio é coextensivo, pelo menos virtualmente, ao de qualquer outro átomo. Estranha propriedade que voltaremos a encontrar mais adiante até na molécula humana !

Unidade colectiva

p. 18 Os inumeráveis focos que partilham entre si um dado volume de matéria nem por isso são independentes uns dos outros. Algo os liga mutuamente e os torna solidários. Longe de se comportar como um receptáculo inerte, o espaço preenchido pela sua multidão age sobre ela à maneira da um meio activo de direcção e transmissão, no seio do qual a sua pluralidade se organiza. Simplesmente adicionados ou justapostos, os átomos não constituem ainda a Matéria. Engloba-os e cimenta-os uma misteriosa identidade contra a qual o nosso espírito embate e é finalmente forçado a ceder.

... a cada fase nova da Antropogénese, encontrar-nos-emos perante a inimaginável realidade das ligações activas, e com elas teremos de lidar incessantemente, até chegarmos a reconhecer e a definir a sua verdadeira natureza.

- Energia:

p. 19 ... é [a] terceira face da Matéria.

... Jamais apreendida, de facto, no seu estado puro, mas sempre mais ou menos granulada (até na luz!), e Energia representa actualmente para a Ciência a forma mais primitiva do Estofo universal. Donde uma tendência instintiva das nossas imaginações a considerá-la como uma espécie de fluxo homogéneo, primordial, do qual tudo o que existe de figurado no mundo não seria mais do que fugitivos «turbilhões».

2 - A Matéria Total

p. 20 A história e o lugar da Consciência no Mundo permanecem incompreensíveis para quem não tenha visto, previamente, que o Cosmos em que o Homem se encontra implicado, constitui, pela integridade inatacável do seu conjunto, um sistema, um Totum e um Quantum, - um Totum pela sua Unidade, -um Quantum pela sua Energia...

O Sistema:

p. 20-21 Quanto mais longe e profundamente penetrarmos na Matéria, graças a meios cada vez mais poderosos, mais nos confunde a interligação das suas partes.

O Totum

p. 22 ...o Estofo do Universo corresponde a uma única figura: forma estruturalmente um Todo.

O Quantum

p. 23 .Pois o Todo, uma vez que existe, deve exprimir-se numa capacidade global da acção [da energia] cuja resultante parcial encontramos, aliás, em cada um de nós.

3 - A Evolução da Matéria

A Figura

p. 26 Esta descoberta fundamental, a saber, que todos os corpos derivam, por ordenação, de um só tipo inicial crepuscular, é o clarão que ilumina aos nossos olhos a história do Universo. À sua maneira, a Matéria obedece, desde a origem, à grande lei biológica de «complexificação» .

... a Matéria revela-se-nos em estado de génese

p. 27 ... estas metamorfoses ... todos o sabemos ... [realizam-se] unicamente no âmago e à superfície das estrelas...

p. 30 Na verdade, do ponto de vista evolutivo real, algo, no decurso de qualquer síntese, é definitivamente queimado para custear esta síntese. Quanto mais funciona o Quantum energético do Mundo, maior é o seu desgaste.

p. 30-31 Pouco a pouco, as combinações improváveis que eles representam voltam a desfazer-se em elementos mais simples que caem e se desagregam no amorfo das distribuições prováveis.

 

O DENTRO DAS COISAS

1 - Existência

p. 34 A aparente restrição do fenómeno de consciência às formas superiores da Vida serviu muito tempo de pretexto à Ciência para eliminá-lo das suas construções do Universo.

..... a consciência, essa, para ser integrada num sistema do Mundo, obriga a encarar a existência de uma face ou dimensão nova no Estofo do Universo.

p. 36 No fundo de nós mesmos, sem discussão possível, surge [...] um interior no âmago dos seres... Uma vez que, num ponto de si próprio, o Estofo do Universo tem uma face interna, é forçosamente porque ele é bifacial por estrutura ... Coextensivo ao Fora das Coisas, existe um Dentro das Coisas ... a Matéria original é algo mais que o fervilhar de partículas tão maravilhosamente analisado pela Física moderna.

2 - Leis qualitativas de crescimento

LEI DA COMPLEXIDADE-CONSCIÊNCIA

p. 38 Considerado no estado pré-vital, o Dentro das Coisas, cuja realidade acabamos de admitir até nas formas nascentes da Matéria, não deve ser imaginado como constituído uma «folha» contínua, mas afectado pela mesma granulação que a própria Matéria.

p. 39 Atomismo «misteriosamente ligado entre si por uma Energia de conjunto»

O atomismo é uma propriedade comum ao Dentro e ao Fora das Coisas

Deste ponto de vista, e considerada sob o ângulo puramente experimental, a Consciência manifesta-se como uma propriedade cósmica de grandeza variável, submetida a uma transformação global.

p. 40 Qualquer que seja o caso considerado (do protoplasma ao Homem), podemos estar seguros de que à consciência mais desenvolvida corresponde sempre um edifício mais rico e melhor estruturado.

p. 41 Melhor ainda: uma consciência é tanto mais perfeita quanto mais rico e mais bem organizado é o edifício que ela forra.

p. 42 Todo o resto deste Ensaio não será mais, em suma, do que a história da luta travada, no Universo, entre o Múltiplo unificado e a Multidão inorganizada.

3 - A Energia espiritual

p. 43 Ligar entre si de maneira coerente as duas Energias do corpo e da alma, eis um problema que a Ciência decidiu ignorar provisoriamente.

p. 44 Sem dúvida alguma, a Energia material e a Energia espiritual sustentam-se mutuamente e prolongam-se por meio qualquer coisa ("para pensar é preciso comer"). Bem no fundo, de qualquer maneira, não de haver, a actuar no Mundo, senão uma só e única Energia.

Uma linha de solução

p. 45-46 Para escapar a um impossível e anti-científico dualismo de raiz. - e para salvaguardar, no entanto, a natural complicação do Estofo do Universo, vou, pois, propor a representação seguinte... em cada elemento «particular» ... esta energia fundamental divide-se em duas componentes distintas: uma energia tangencial, que torna o elemento solidário de todos os elementos da mesma ordem ... e uma energia radial, que o atrai na direcção de um estado cada vez mais complexo e centrado, para a frente.

 

A TERRA JUVENIL

p. 49 Há vários milhares de milhões de anos ... um retalho de matéria formado de átomos particularmente estáveis despega-se da superfície do Sol. ... Ele é o único ponto do Mundo onde ainda nos é dado seguir nas suas fases últimas, e até nós próprios, a evolução da Matéria.

1 - O Fora

p. 50 Neste globo que acaba de nascer, ao que parece, por um golpe de acaso na massa cósmica ... a presença ... de corpos quimicamente compostos.

Barisfera, Litosfera, Hidrosfera, Atmosfera, Estratosfera.

O Mundo que cristaliza

p. 51-52 O Mundo Mineral ... muito mais dúctil e movediço do que o podia suspeitar a Ciência de outrora ... Assim nascem agrupamentos regulares ... que no entanto não correspondem a nenhuma unidade propriamente centrada. Simples justaposição, sobre uma rede geométrica, de átomos ou de agrupamentos atómicos ... Um mosaico indefinido de pequenos elementos , tal é a estrutura do cristal ... E tal é a organização, simples e estável, que, no conjunto, deve ter adoptado, logo na origem, a Matéria condensada que nos rodeia.

O Mundo que se polimeriza

p. 54 Em volta do nosso planeta nascente..., há que considerar os lineamentos de um invólucro especial (...orgânico, que se constitui) ... Pois é nele que se vai em breve concentrar gradualmente o «Dentro da Terra».

2 - O Dentro

p. 55 ... aqui as coisas tornaram-se diferentes. A Matéria já não se entende ... em camadas indefiníveis e difusas. Enrolou-se sobre si mesma num volume fechado

p. 56 ... se chegámos a compreender que a Pré-vida já se encontra emersa no átomo, como não contar com essas miríades de grandes moléculas ?

p. 57 Mas esta própria síntese nunca se realizaria se o Globo, no seu conjunto, não enrolasse, dentro de uma superfície fechada, as camadas da sua substância ... O quantum de consciência contido no nosso Mundo terrestre não é simplesmente formado por um agregado de parcelas ... Representa uma massa solidária de centros infinitesimais estruturalmente ligados entre si pelas suas condições de origem e do seu desenvolvimento ... um Todo orgânico onde é doravante impossível separar qualquer elemento dos outros elementos que o rodeia. Novo insecável aparecido no âmago do Grande Insecável que é o Universo. Algo vai rebentar sobre a Terra juvenil. A Vida ! Eis a Vida !

 

A Vida

I - O APARECIMENTO DA VIDA

p. 61 Mundo animal e Mundo animado: ...massa única ... à escala do microscópico e, mais abaixo ainda, do ínfimo ... Nenhum limite nítido entre o animal e o vegetal ... nenhuma barreira segura entre o protoplasma «vivo» e as proteínas «mortas», ao nível dos grandes amontoados moleculares.

«Mortas», como são ditas ainda estas substâncias inclassificadas ... Mas não reconhecemos já que elas seriam incompreensíveis se não possuíssem, no seu âmago, qualquer psique rudimentar ?

Em certo sentido é, pois, verdade que tanto à Vida como a qualquer outra realidade experimental, já não poderíamos fixar, como outrora julgávamos poder fazer, um zero temporal absoluto.

Para um determinado Universo, e para cada um dos seus elementos, não há, no plano da experiência e do fenómeno, senão uma única duração possível, e esta sem margem para trás.

p. 62 Mas o ter claramente reconhecido e admitido definitivamente, para qualquer novo ser, a necessidade e o facto de uma embriogénese cósmica, em nada lhe suprime a realidade de uma nascença histórica.

p. 63 Ora eis que, num dado momento, mais tarde, depois de um período suficientemente longo, começaram certamente a formigar aqui e ali, nestas mesmas águas (primordiais), seres minúsculos. E deste pulular inicial saiu a espantosa massa de matéria organizada cujo feltro complexo constitui hoje o último (ou melhor o penúltimo), dos invólucros do nosso planeta: a Biosfera.

1 - O Passo da Vida

Mas uma coisa é certa: semelhante metamorfose não pode explicar-se por um processo simplesmente continuo ... temos de situar neste momento particular da evolução terrestre uma maturação, uma muda, um limiar, uma crise de primeira grandeza: o começo de uma ordem nova.

2 - As Aparências iniciais da Vida

p. 80 Por mais perto que a cinjamos do seu ponto de saída, a Vida revela-se-nos, pois, simultaneamente, como microscópica e inumerável ... Aqui reaparece, à escala do colectivo, o limiar que separa os dois mundos da Física e da Biologia. Enquanto se tratava apenas de proceder à mescla de átomos e moléculas, podíamos, para explicar os comportamentos da Matéria, contentar-nos com as leis numéricas da probabilidade. A partir do momento em que a mónade, adquirindo as dimensões e a espontaneidade da Célula, tende a individualizar-se no seio da plêiade, desenha-se uma ordenação mais complicada no Estofo do Universo. Por duas razões, pelo menos, seria insuficiente e falso imaginar a Vida, mesmo tomada no seu estádio granular, como uma espécie de fervilhar fortuito e amorfo.

p. 83-84 Em primeiro lugar, a massa inicial das células deve ter sido submetida no seu interior, desde o primeiro instante, a uma forma de interdependência que não seria já um simples ajustamento mecânico, mas um começo de «simbiose» ou vida em comum. Por mais ténue que tenha sido, o primeiro véu de matéria orgânica estendido sobre a Terra não teria podido estabelecer-se, nem manter-se, sem alguma rede de influência e de intercâmbios que fizesse dele um conjunto biologicamente ligado ... uma espécie de super organismo difuso. Em segundo lugar ... os inumeráveis elementos que compunham, nos seus inícios, a película viva da Terra não parecem ter sido tomados nem reunidos exaustivamente ou fortuitamente.

... As semelhanças da substância viva em disposições que não parecem necessárias (anatomia, bioquímica, etc.) não sugerirão que houve, na sua origem, uma selecção? ... O interessante é que (nas diversas hipóteses) o mundo terrestre vivo toma a mesma e curiosa aparência de uma Totalidade reformada a partir de um agrupamento parcial: por mais complexo que possa ter sido o seu impulso original, este esgota apenas uma parte daquilo que poderia ter existido ! Multidão variegada de elementos microscópicos, multidão suficientemente numerosa para envolver a Terra, e, no entanto, multidão suficientemente aparentada e seleccionada para formar um Todo estruturalmente e geneticamente solidário: tal nos aparece, em suma, vista a grande distância, a Vida elementar.

p. 90 ...quanto mais se complicam os organismos, mais se torna evidente o seu parentesco nativo. Ele transparece na uniformidade absoluta e universal do tipo celular. Surge, sobretudo nos animais, nas soluções idênticas dos diversos problemas da percepção, da nutrição, da reprodução: por toda a parte, sistemas vasculares e nervosos; por toda a parte, olhos ... Continua ainda na semelhança dos métodos empregados pelos indivíduos para se associarem em organismos superiores ou para se socializarem. Manifesta-se enfim nas leis gerais de desenvolvimento («ontogénese» e «filogénese») que dão ao Mundo vivo, tomado no seu conjunto, a coerência de um único jacto.

p. 91 ... e no naturalista é cada vez maior a convicção de que a eclosão da Vida sobre a Terra pertence à categoria dos acontecimentos absolutamente únicos que, uma vez realizados, nunca mais se repetem.

p. 92 ... a Terra já não é simplesmente uma espécie de grande corpo que respira. Soergue-se e abate-se... Mas, o que é mais importante ainda, deve ter começado, em qualquer momento; [...] tende verosimilmente para qualquer estado final. Tem um nascimento, um desenvolvimento e terá, sem dúvida, uma morte. Deve, pois, estar em curso, à nossa volta, mais profundamente do que qualquer pulsação exprimível em eras geológicas, um processo de conjunto, não periódico, que defina a evolução total do planeta.

p. 92-93 Deste ponto de vista, que me parece o único certo, a «revolução celular» revelar-se-ia então como exprimindo, na curva da revolução telúrica, um ponto crítico e singular de germinação, - um momento sem igual.

p. 93 A Vida nasceu e propagou-se sobre a Terra como uma pulsação solitária. É a propagação desta onda única que importa agora acompanhar até ao Homem e, se for possível, para além do Homem.

II - A EXPANSÃO DA VIDA

p. 95-96 Na base de todo o processo graças ao qual se teve em volta da Terra o invólucro da Biosfera situa-se o mecanismo, tipicamente vital, da Reprodução... Tudo, nos movimentos ulteriores da Vida, deriva deste fenómeno elementar e poderoso... a Reprodução surge inicialmente como um simples processo imaginado pela Natureza para assegurar a permanência do instável.

... Nenhum volume, por maior que seja, resiste aos efeitos duma progressão geométrica ...

... a Vida possui uma força de expansão tão invencível como a dum corpo que se dilata ...

p. 97-98 E foi então, ao que parece, que, para alargar a brecha assim aberta, pela sua primeira vaga, na muralha do Inorganizado, a Vida descobriu o maravilhoso processo da Conjugação... de «caracteres», cuja análise é minuciosamente realizada pela genética moderna.

...os raios da Vida começavam já então a anastomosar-se - trocando e variando as suas riquezas respectivas... quantos acasos e quantas tentativas - quanto tempo, por conseguinte -, não foram precisos para que amadurecesse esta descoberta fundamental donde nós saímos! E quanto tempo ainda para que ela encontrasse o seu complemento e o seu acabamento naturais na inovação, não menos revolucionaria da Associação! ... esta forma última e suprema de agrupamento em que culmina talvez, no social reflexivo, o esforço da Matéria para se organizar ...

p. 100-101 A esta lei de complicação dirigida, em que amadurece o próprio processo donde, a partir das micromoléculas, e depois a partir das megamoléculas, tinham saído as primeiras células, deu a Biologia o nome de Ortogénese.

A ortogénese, forma dinâmica e a única completa, da Hereditariedade. Que realidade e que impulsos de amplitude cósmica esconde este vocábulo?

Sem a ortogénese, não haveria senão um alastramento de Vida. Com a ortogénese, temos irresistivelmente uma ascensão da Vida.

p. 102 Profusão. Todo o esbanjamento aparente e toda a sofreguidão... mas, ao mesmo tempo, para sermos justos, toda a eficácia biológica da luta pela Vida.

p. 103-104 O Tenteio, em que se combinam de maneira tão curiosa a fantasia cega dos grandes números e a orientação precisa com vista a um alvo ambicionado... que não é somente o Acaso, com o qual se pretendeu confundi-lo, mas um Acaso dirigido.

Encher tudo para tudo ensaiar. Ensaiar tudo para tudo encontrar.

Inventiva ... Por construção ... qualquer organismo é sempre necessariamente desmontável em peças aparelhadas. Mas de modo algum se conclui desta circunstância que o próprio somatório destas peças seja automático ... Da parte da Vida, é o triunfo da inventiva.

p. 104-105 Indiferença ... Pela força da ortogénese, o individuo encontra-se incorporado numa fieira. De centro torna-se intermediário. Já não existe: transmite. Só a partir do Espírito, ... a antinomia se esclarece; e a indiferença do Mundo para com os seus elementos transforma-se então numa imensa solicitude - na esfera da Pessoa.

p. 107-108 A expansão da vida. Observada nos seus começos, esta concentração das formas em volta de alguns eixos privilegiados apresenta-se indistinta e esfumada: simples aumento, em certos sectores, do número ou da densidade das linhagens. E depois, gradualmente, afirma-se o movimento... Daqui em diante, a sua associação (das linhagens) vai envolver de per si, como coisa autónoma. A espécie individualizou-se. Nasceu o Filo... Sem metáfora, embora à sua maneira, ele comporta-se como algo vivo; cresce e desabrocha.

p. 113 Um leque na extremidade do filo é uma floresta de antenas exploradoras. Encontre uma destas antenas, por casualidade, a fissura ou a formula que dá acesso a um novo compartimento da Vida, e então, em lugar de se fixar ou «culminar» em diversificações monótonas, o ramo recupera neste ponto toda a sua mobilidade. Ele entra em mutação. Pela via assim aberta, estua uma nova pulsação de Vida... É um novo filo que surge... desabrocha... se a direcção é boa e se o equilíbrio geral da Biosfera o permite.

p. 114 Efeitos de longes

p. 116 Em todos os domínios, quando uma coisa verdadeiramente nova começa a despontar à nossa volta, nós não a distinguimos... retrospectivamente, as coisas parecem-nos surgir já inteirinhas.

p. 117 Assim, por um efeito destrutivo do Passado que se sobrepõe a um efeito construtivo do Crescimento, acabam de se desenhar e de se salientar aos da Ciência, as ramificações da Árvore da Vida.

p. 138 ... a Vida apresenta-se como um conjunto organicamente articulado que deixa transparecer manifestamente um fenómeno de crescimento.

p. 140 Como todas as coisas num Universo onde o tempo se instalou definitivamente... a título de quarta dimensão, a Vida é e não pode deixar de ser uma grandeza de natureza ou dimensões evolutivas. Física e historicamente, ela corresponde a uma certa função X que define, no Espaço, na Duração e na Forma, a posição de cada um dos seres vivos. Eis o facto fundamental...

Neste grau de generalidade, pode dizer-se que a «questão transformista» já não existe...

Para abalar agora a nossa convicção de da realidade de uma Biogénese, seria preciso minar toda a estrutura do Mundo e desenraizar a Árvore da Vida.

A TERRA-MÃE - DEMÉTER

p. 141 Sobre o facto geral de que há uma evolução, todos os investigadores... estão actualmente de acordo. Quanto à questão de saber se esta evolução é dirigida, a coisa é já diferente.

p. 142 ...Com que direito, por exemplo, se poderá dizer que o Mamífero - seja ele o Homem - está mais avançado e é mais perfeito que a Abelha ou a Rosa ?

... Gostaria de fazer compreender aqui porque é que, postos de lado qualquer antropocentrismo e qualquer antropomorfismo, eu creio perceber que existem, para a Vida, um sentido e uma linha de progresso - sentido e linha tão bem definidos que a sua realidade, disso estou convencido, será universalmente admitida pela Ciência de amanhã.

1 - O fio de Ariadne

p. 143 A essência do Real ... poderia muito bem ser representada pelo que o Universo contém, num dado momento de «interioridade»; e, neste caso, a Evolução nada mais seria, no fundo, senão o aumento contínuo, no decurso da Duração, deste Energia «psíquica» ou «radial»

Procuremos distribuir os seres vivos segundo o seu grau de «cerebralização» ... uma ordem estabelece-se.

p. 146-147 Uma repartição das formas animais conforme o seu grau de cerebralização não só acompanha exactamente os contornos impostos pela Sistemática, mas confere também à Árvore da Vida um relevo, uma fisionomia, um impulso onde é forçoso reconhecer o cunho da verdade. Tanta coerência ... não pode ser um efeito do acaso. Dá um sentido ... à evolução.

p. 147 Se, pois, tomada na sua totalidade ... a História Natural dos seres vivos desenha exteriormente o estabelecimento gradual dum vasto sistema nervoso, é porque ela corresponde interiormente à instalação de um estado psíquico à própria medida da Terra.

2 - A Ascensão da Consciência

p. 149 Já não é a sinusóide que rasteja, mas a espiral que irrompe em hélice. De Camada para Camada zoológica, algo passa e cresce sem cessar, aos empuxões, no mesmo sentido. E este algo é o mais fisicamente essencial no astro em que vivemos.

Doravante, o eixo da Geogénese passa o prolonga-se pela Biogénese. E esta exprime-se afinal de contas numa Psicogénese.

À frente, a Vida - com toda a Física a ela subordinada. E no âmago da Vida, para explicar a sua progressão, a mola impulsora de uma Ascensão de Consciência.

p. 153-154 Número dos ossos, forma dos dentes, ornamentação dos tegumentos, todos esses «fenocaracteres» não são na realidade senão a vestimenta que se molda a um suporte mais profundo... uma floresta de instintos consolidados. Da Biosfera à Espécie, tudo é ,pois, simplesmente uma imensa ramificação de psiquismo que se busca através das formas. Eis onde nos leva, seguindo até ao fim, o fio de Ariadne... Agora que ... se revela aos nossos olhos o aumento irreversível ... dos cérebros (e portanto das consciências) ficamos sabendo que era de esperar inevitavelmente um acontecimento de ordem nova, uma metamorfose para encerrar, no decurso dos tempos geológicos, este período de síntese.

3 - A Aproximação dos tempos

p. 156 Em que região da Biosfera, no Plioceno, está a subir a temperatura? ... Procuremos nas cabeças, naturalmente.

p. 157 Os psiquismos superiores exigem fisicamente cérebros volumosos.

p. 164 Donde esta primeira conclusão: se, na Árvore da Vida, os Mamíferos constituem um Ramo mestre, os Primates, quer dizer, os cérebro-manuais, são a flecha deste Ramo - e os Antropóides, o próprio rebento que termina esta flecha. E, então, ... é fácil decidir em que ponto da Biosfera devemos deter os nossos olhos, na expectativa do que há-de acontecer.

Depois de ter subido, por trás do horizonte, durante milhares de anos, vai agora romper uma chama - Aí está o pensamento !

 

O Pensamento

I - O NASCIMENTO DO PENSAMENTO

p. 167 O Homem, tal como a Ciência o consegue reconstituir hoje em dia, é um animal como os outros... Ora, a julgarmos pelos resultados biológicos do seu aparecimento, não será ele precisamente algo de completamente diferente ?

Salto morfológico ínfimo; e, ao mesmo tempo, incrível abalo das esferas da Vida: todo o paradoxo humano ... E, por conseguinte, evidência absoluta de que, ... a Ciência descura um factor essencial ... uma dimensão inteira do Universo.

...meter em linha de conta o Dentro ao mesmo tempo que o Fora das Coisas. É (este método) que vai reconciliar perante os nossos olhos... a insignificância e a suprema importância do Fenómeno Humano.

1 - O Passo da Reflexão

A- O Passo elementar. A hominização do indivíduo

p. 168-169 (entre os cientistas) reina a incerteza no que se refere à existência dum sentido, e, a fortiori, de um eixo definido na Evolução - do mesmo modo ... quando se trata de decidir se o psiquismo humano difere especificamente (por «natureza») do dos seres que apareceram antes dele.

... eu não vejo senão um único meio: pôr decididamente de lado, no feixe dos comportamentos humanos, todas as manifestações secundárias e equívocas da actividade interna e encarar bem de frente o fenómeno central da Reflexão.

Do ponto de vista experimental, que é o nosso, a Reflexão ... é o poder adquirido por uma consciência de se dobrar sobre si mesma e de tomar posse de si mesma como de um objecto dotado da sua própria consciência e do seu próprio valor: já não é só conhecer - mas conhecer-se a si próprio; já não é só saber - mas saber que se sabe.

Com esta individualização de si próprio no fundo de si próprio, o elemento vivo ... acha-se constituído, pela primeira vez, em centro punctiforme onde todas as experiências se enlaçam e se consolidam num conjunto consciente da sua organização.

p. 169-171 Quais são as consequências de semelhante transformação ? Estas são imensas e nós distinguimo-las na Natureza tão claramente como qualquer dos factos registados pela Física ou pela Astronomia. O ser reflexivo ... torna-se de repente susceptível de se desenvolver numa esfera nova. Na realidade é outro mundo que nasce. Abstracção, lógica, opções e invenções ponderadas, matemáticas, arte, percepção calculada do espaço e da duração, ansiedades e sonhos de amor ...

Bem entendido, o animal sabe. Mas, com toda a certeza, não sabe que sabe ... Relativamente a ele, porque somos reflexivos, não somos apenas diferentes, mas outros. Não já simplesmente mudança de grau - mas mudança de natureza - que resulta de uma mudança de estado.

A Vida, porque é ascensão de consciência, não podia continuar a avançar indefinidamente na sua linha sem se transformar em profundidade. Ela tinha, como qualquer grandeza crescente no Mundo, de se tornar diferente para permanecer ela mesma... eis que se descobre, no acesso à capacidade de reflectir, a forma particular e crítica de transformação em que consistiu para ela esta supercriação - ou este renascimento.

p. 172 ... a Evolução é transformação primariamente psíquica, não há um instinto na Natureza, mas uma multidão de formas de instintos, cada um dos quais corresponde[ndo] a uma solução particular do problema da Vida... os instintos [...] constituem, na sua complexidade, um sistema crescente - figuram, no seu conjunto, uma espécie de leque.

p. 173-174 No fim do Terciário, havia mais de 500 milhões de anos que a temperatura psíquica subia no mundo celular. De Ramo em Ramo, de Camada em Camada, os sistemas nervosos iam-se pari passu complicando e concentrando. Finalmente construíra-se, da parte dos Primates, um instrumento tão admiravelmente dúctil e rico que o passo imediatamente seguinte não podia ser dado sem que o psiquismo animal todo inteiro se encontrasse como refundido e consolidado sobre si mesmo. Ora o movimento não parou, pois nada, na estrutura do organismo, o impedia de avançar. Ao Antropóide, levado «mentalmente» a 100 graus, foram pois acrescentadas mais algumas calorias. No Antropóide, quase chegado ao vértice do cone, exerceu-se um ultimo esforço ao longo do eixo ... O que não era ainda senão superfície centrada tornou-se centro. Devido a um acréscimo ínfimo, o (fenómeno) voltou-se sobre si mesmo e, por assim dizer, saltou até ao infinito para a frente. Aparentemente, quase nada de mudado... Mas, em profundidade, uma grande revolução: a consciência jorrando efervescente... capaz de se aperceber a si própria na simplicidade concentrada das suas faculdades - tudo isto pela primeira vez.

p. 178-179 E é somente aqui que acaba de revelar-se a natureza do passo da reflexão. Mudança de estado, em primeiro lugar. Mas, em seguida, e por isso mesmo, começo de outra espécie de vida - precisamente essa vida interior que mencionei acima.

... No caso da inteligência, «ser posto» não significa, com efeito, «estar terminado»... O centro psíquico reflexivo ... não pode subsistir senão por um duplo movimento que apenas faz um: centrar-se ainda mais sobre si ... e ao mesmo tempo centrar o resto do Mundo em volta de si, pelo estabelecimento de uma perspectiva cada vez mais coerente e bem organizada nas realidades que o cercam ...Não foco imutavelmente fixo ... o "Eu" que só se aguenta tornando-se cada vez mais ele mesmo, na medida em que torna todo o resto ele próprio. A Pessoa na e pela Personalização.

... Notamos então que, sob a realidade ... das transformações colectivas, se efectuava secretamente uma marcha paralela para a individualização.

2 - O Passo filético. A Hominização da Espécie

p. 181 ... a personalização do individuo pela hominização do grupo inteiro.

p. 183-184 ... porque se nos revela ... o valor orgânico de qualquer construção social, sentimo-nos já mais dispostos ... a respeitá-la ... [e] exactamente porque as fibras do filo humano nos surgem envolvidas pela sua bainha psíquica, começamos a compreender o extraordinário poder de aglutinação e de coalescência que elas apresentam. E eis-nos, do mesmo passo, a caminho duma descoberta fundamental em que acabará por culminar o nosso estudo do Fenómeno Humano: a convergência do espírito.

p. 186 ... é evidente que algo se acumula irreversivelmente e se transmite, pelo menos colectivamente, por educação, através das idades ... estabelece-se e propaga-se uma corrente hereditária e colectiva de reflexão: o advento da Humanidade através dos Homens

p. 188 Hominização que é, antes de tudo, se se prefere, o salto individual, instantâneo, do instinto para o pensamento. Mas hominização que é também, num sentido mais lato, a espiritualização filética, progressiva, na Civilização humana, de todas as forças contidas na animalidade.

p. 191 Pela hominização, apesar das insignificâncias do salto anatómico, uma nova Idade começa. A Terra «muda de pele». Melhor ainda, encontra a sua alma.

p. 192 O que pode haver de mais revelador para a nossa Ciência moderna é perceber que todo o precioso, todo o activo, todo o progressivo originariamente contido no retalho cósmico donde saiu o nosso mundo, se acham agora concentrados na «coroa» de uma Noosfera.

2 - O ESPLENDOR DA NOOSFERA

p. 212 Em qualquer hipótese, uma coisa é certa e por todos admitida. O Homem que avistamos na terra , no fim do Quaternário, é já verdadeiramente o Homem moderno - sob todos os aspectos.

p. 214-215 Na idade da Rena, ... com o Homo sapiens, um Pensamento definitivamente liberto explode, ainda quente, nas paredes da cavernas. Os recém-chegados traziam consigo a Arte, uma arte ainda naturalista, mas prodigiosamente consumada. ... surpreendemos nos artistas desta era longínqua, o sentido da observação, o gosto pela fantasia, a alegria de criar: estas flores duma consciência , não só reflexiva, mas exuberante.

... No fim do Quaternário, a evolução, no Homem, teria, pois, parado ? De modo algum. Mas ... transbordou francamente, a partir desta data, por cima das suas modalidades anatómicas, a fim de se estender ... para as zonas, individuais e colectivas, da espontaneidade psíquica.

A metamorfose neolítica

p. 216 O Neolítico, idade desdenhada pelos pré-historiadores, porque demasiado jovem. Idade descurada pela História, porque as suas fases não podem ser datadas com precisão. Idade crítica, todavia, e solene entre todas as idades do Passado: o nascimento da Civilização.

p. 217 Antes do mais, os progressos incessantes da Multiplicação. Com o rápido acréscimo do número de indivíduos, mais exíguo se torna o terreno livre. Os grupos entrechocam-se. Por isso, a amplitude das deslocações diminui e põe-se o problema de tirar o melhor partido possível de domínios cada vez mais limitados.

... A criação dos animais e a cultura das plantas substituem doravante a caça e a colheita... E tudo o resto é consequência desta mudança fundamental. Em primeiro lugar, nas aglomerações em vias de crescimento, aparece a complexidade dos direitos e dos deveres, obrigando a imaginar todas as espécies de estruturas comunitárias e de jurisprudência.

p. 218 Simultaneamente, no meio mais estável e mais denso criado pelos primeiros estabelecimentos agrícolas, a necessidade e o gosto da pesquisa regularizam-se e animam-se ... Tudo o que era acessível parece ter sido ensaiado nesta época extraordinária. Selecção e melhoramento empíricos dos frutos, dos cereais e dos rebanhos... Cerâmica ... Tecelagem ... Muito cedo, os primeiros elementos duma escrita pictográfica - e muito em breve, os começos da metalurgia.

(A humanidade é) doravante em plena expansão... pelo Alasca ... o homem penetra na América ... E ... balizada pelo longo rasto, ainda visível ... outra camada começa a estender-se, fabulosa aventura, através do Pacifico.

p. 219 A partir da idade da Rena, os povos encontraram pouco a pouco, até ao pormenor, o seu lugar definitivo. A condutibilidade aumenta entre eles, mediante o comércio dos objectos e a transmissão das ideias. Organizam-se as tradições. Desenvolve-se uma memória colectiva. Por mais ténue e granular que seja ainda esta primeira membrana, a Noosfera começou então a fechar-se sobre si mesma - envolvendo a Terra.

p. 221-223 A partir do neolítico, a influência dos factores psíquicos começa a predominar francamente sobre as variações, cada vez mais amortecidas, dos factores somáticos .

1) Aparecimento ... das unidades políticas e culturais

2) ... manifestação entre estes ramos de um novo género , das forças de coalescência (anastomoses, confluências)

Todo um jogo conjugado de divergências e de convergências.

Nascimento, multiplicação e evolução das nações, dos estados, das civilizações... O espectáculo está por toda a parte à nossa vista e as suas peripécias enchem os anais dos povos.

... (Conflitos) ... Por mais brutal que seja a conquista, a supressão é sempre acompanhada de alguma assimilação. Mesmo parcialmente absorvido, o vencido reage ainda sobre o vencedor para o transformar.

... Permeabilidade mútua dos psiquismos, aliada a uma notável e significativa infecundidade. Sob esta dupla influência, que mistura e associa as tradições étnicas ao mesmo tempo que os genes cerebrais, se delineiam e se fixam verdadeiras combinações biológicas. Outrora, na Árvore da Vida, um mero emaranhamento de hastes. Agora, em todo o domínio do Homo Sapiens, uma síntese.

p. 226 É fácil, para o pessimista, repartir este período extraordinário em civilizações que ruem uma após outra. Não será muito mais científico reconhecer, uma vez mais, sob estas oscilações sucessivas, a grande espiral da Vida, a elevar-se irreversivelmente, por revezamentos, segundo a linha mestra da sua evolução? Susa, Mênfis, Atenas podem morrer. Uma consciência do Universo cada vez mais organizada passa de mão em mão, e o seu fulgor aumenta.

p. 227 ... irresistivelmente, dum cabo ao outro do Mundo, todos os povos, para permanecerem humanos, ou para mais humanos se tornarem, são levados a formular, nos próprios termos em que o Ocidente chegou a concebê-los (nomeadamente na Ásia Menor), as esperanças e os problemas da Terra moderna.

3- A TERRA MODERNA

p. 230-231 A sorte, e a honra, das nossas breves existências é de estas coincidirem com uma muda da Noosfera. Nessas zonas confusas e tensas onde o Presente se mescla ao futuro, num mundo em ebulição, eis-nos frente a frente com toda a grandeza, uma grandeza jamais atingida, do Fenómeno Humano. Aqui ou em parte alguma, agora ou nunca ... nós podemos ... avaliar a importância e apreciar o sentido da Hominização.

O que, no espaço de quatro ou cinco gerações, nos fez, diga-se o que se disser, tão diferentes dos nossos antepassados - tão ambiciosos - e também tão ansiosos, não foi com certeza unicamente o ... termos descoberto e domado outras forças da Natureza. Bem no fundo, foi, se não erro, o facto de termos tomado consciência do movimento que nos arrasta - e, por isso mesmo, de termos apercebido os problemas medonhos que nos põe o exercício reflexivo do Esforço Humano.

1 - A Descoberta da Evolução

A - A percepção do espaço-tempo

p. 233-234 Só em pleno século XIX, e sob a influência da Biologia, começou enfim a jorrar a luz e a descobrir-se a irreversível coerência de tudo o que existe. Os encadeamentos da Vida, - e, pouco depois, os encadeamentos da Matéria. A menor molécula de carbono, função, por natureza e por posição, do processo sideral total ... A distribuição, a sucessão e a solidariedade dos seres que resultam da concrescência destes numa génese comum. O Tempo e o Espaço, que se unem organicamente para tecerem, juntos, o Estofo do Universo...

Um após o outro, os domínios do conhecimento humano se põem em marcha, arrastados em conjunto pela mesma corrente de fundo, para o estudo de qualquer desenvolvimento. A Evolução, apenas uma teoria, um sistema, uma hipótese?... Nada disso ... uma luz que ilumina todos os factos, uma curvatura que todos os traços devem acompanhar, e eis o que é a Evolução. ... O que faz um homem «moderno» e como tal o classifica (e, neste sentido, uma multidão de contemporâneos nossos não são ainda modernos), é ter-se tornado capaz de ver, não só no Espaço, não só no Tempo, mas na Duração - ou, o que vem a dar ao mesmo, no Espaço-Tempo biológico; - e é também, além disso, achar-se incapaz de nada ver de outra maneira - nada - a começar por ele próprios.

B - O envolvimento da duração

p. 235-236 O Homem não podia evidentemente aperceber a Evolução à sua volta sem se sentir em certa medida soerguido...

Não, não somos apenas jogados e arrastados na corrente vital pela superfície material do nosso ser. Mas, como um fluido subtil, o Espaço-Tempo ... penetra até à nossa alma.

A Evolução vai atingindo, quer se queira quer não, as zonas psíquicas do Mundo...

p. 237 Não só o pensamento a fazer parte da Evolução (fenómeno de emergência), mas a Evolução... redutível e identificável a uma marcha para o Pensamento. O Homem a descobrir, segundo a vigorosa expressão de Julian Huxley, que ele próprio não é mais do que a Evolução que se tornou consciente de si mesma...

C - A iluminação

p. 238 Passo a passo, desde a «Terra Juvenil», nós temos seguido, em sentido ascendente, os progressos sucessivos da Consciência na Matéria em vias de organização. Chegados ao cimo, podemos agora voltar-nos ... e procurar abarcar ... de cima a baixo, uma tríplice unidade (que) prossegue e se desenvolve.

p. 238-242

Unidade de estrutura

"Tenteio" e "invenção" ... Leques de instituições e de ideias ... "mutações de massas"

Unidade de mecanismo

... a invenção, esse acto revolucionário donde emergem uma após outra as criações do nosso pensamento

Angústias e alegrias de «tudo tentar e tudo descobrir»

p. 241 A vaga que sentimos passar não se formou em nós mesmos. Chega-nos de muito longe - tendo partido ao mesmo tempo que a luz das primeiras estrelas... O espírito de pesquisa e de conquista é a alma permanente da Evolução.

Unidade de movimento

... sob os nossos olhos, (as forças evolutivas) armazenam-se irreversivelmente, por todos os canais da "tradição", na mais alta forma de Vida acessível à nossa experiência, quer dizer, na Memória e na Inteligência colectiva do biote humano - Tradição, Instrução, Educação. Sob a influência do nosso desdém pelo «artificial», consideramos instintivamente estas funções sociais como imagens atenuadas, quase como paródias, do que se passa na formação natural das Espécies.

2 - O Problema da Acção

A - A Inquietação moderna

p. 243-244 A Evolução ... consciente de si mesma ... adquire, além disso, a liberdade de dispor de si própria - de se dar ou de se recusar. Não só lemos nos nossos mínimos actos o segredo da suas diligências, mas, por uma parte elementar, temo-la nas nossas mãos: responsáveis do seu passado perante o seu futuro ... Todo o problema da Acção.

p. 244 Que, sob o efeito de uma Reflexão que se socializa, os homens de hoje são particularmente inquietos - mais inquietos do que em momento algum da História - , não se pode duvidar. Consciente ou inconfessada, a angústia, uma angústia fundamental do ser.

Algo nos ameaça, algo nos falta mais do que nunca - sem que saibamos exactamente o quê.

p. 247 Na verdade, metade do mal-estar presente transformar-se-ia em alegria se, dóceis aos factos, nos decidíssemos simplesmente a situar numa Noogénese a essência e a medida das nossas modernas cosmogonias.

B - Exigências do futuro

p. 248 Nós estamos a descobrir que Algo se desenvolve no Mundo, por meio de nós próprios ... Nada poderá continuar se abandonarmos a mesa [do jogo].

p. 249 Os elementos do Mundo que se recusam a servir o Mundo porque pensam. Mais precisamente ainda, o Mundo que se recusa a si próprio ao aperceber-se pela Reflexão. Eis o perigo. Chegarmos, progredindo, directamente ou indirectamente, individualmente ou colectivamente, até ao termos de nós mesmos.

C - O dilema e a opção

p. 251-252 «Ou a Natureza se fecha às nossas exigências de futuro: e então o Pensamento, fruto de milhões de anos de esforço, asfixia, nado-morto, num Universo absurdo que se aborta a si mesmo;

... ou existe uma saída - uma sobrecalma acima das nossas almas. Mas então esta saída, para que aceitemos meter-nos por ela, tem de dar sem restrição para espaços psíquicos ilimitados, num Universo em que possamos cegamente fiar-nos.»

Na sua famosa aposta, para fixar a opção do Homem, Pascal marcava os dados com o engodo de um ganho total. Aqui, quando um dos dois termos da alternativa é lastrado pela lógica, e de certa maneira pelas promessas, de um Mundo inteiro, poder-se-á falar ainda dum simples jogo de probabilidades, e teremos nós acaso o direito de hesitar ?

Na verdade, o Mundo é coisa por demais importante. Desde as origens, para nos engendrar, jogou miraculosamente com demasiados improváveis para que agora corramos qualquer risco em nos aventurarmos mais para diante, até ao fim, na sua esteira. Se ele empreendeu a obra, é porque pode terminá-la, segundo os mesmos métodos, e com a mesma infalibilidade com que a começou.

A Sobrevida

A SAÍDA COLECTIVA

p. 257-258 Um beco a evitar: o Isolamento. Tornarmo-nos mais sós para sermos mais nós... Concentração por descentração relativamente ao resto. Solitários e, à força de solidão, os elementos salváveis ... encontrariam a sua salvação ... por excesso da sua individualização ... selecção ... eleição das Raças. Luta pela vida, sobrevivência do mais apto. Racismo.

1 - A confluência do Pensamento

A - Coalescência forçada de eelementos

p. 259-262 Por natureza e em todos os seus graus de complicação, os elementos do Mundo têm o poder de se influenciarem e de se invadirem mutuamente pelo seu Dentro, de maneira a combinar em feixes as suas «energias radiais».

A limitação geométrica de um astro fechado sobre si mesmo, como uma molécula gigantesca. Este carácter já nos surgira como necessário na origem das primeiras sínteses ... sobre a Terra Juvenil. Mas que dizer da sua função na Noosfera ?

Livre, suponhamos o impossível, de se espacejar e de se expandir indefinidamente sobre uma superfície sem limites, quer dizer, abandonada ao único jogo das suas afinidades internas, que teria sido da Humanidade ? Algo de inimaginável ... talvez mesmo absolutamente nada, a julgar pela extrema importância que tomaram, nos seus desenvolvimentos, as forças de compressão.

Ora, à medida que, sob o efeito desta pressão, a graças à sua permeabilidade psíquica, os elementos humanos se interpenetravam cada vez mais, o seu espírito (misteriosa coincidência) aquecia-se por aproximação. E como que dilatados sobre si próprios, cada um deles alargava pouco a pouco o raio da sua zona de influencia sobre a Terra que, por isso mesmo, se achava cada vez mais minguada. Com efeito, o que [vemos nós] acontece[r] ?

(descobertas científicas, raio de acção...)

Melhor ainda: graças ao prodigioso acontecimento biológico que representa a descoberta das ondas electromagnéticas, cada individuo se encontra doravante ... simultaneamente presente à totalidade do mar e dos continentes - co-extensivo à Terra.

Assim, não só por aumento incessante do número dos seus membros, mas também por aumento contínuo da sua área de actividade individual, a Humanidade ... encontra-se irremediavelmente submetida a uma pressão formidável ... cada novo grau na compressão ... exaltando um pouco mais a expansão de cada elemento.

Inegavelmente, e fora de qualquer hipótese, o jogo externo das forças cósmicas, combinado com a natureza coalescível das nossas almas pensantes, actua no sentido de uma concentração energética das consciências: esforço tão poderoso que chega a fazer vergar sob si próprio as próprias construções da Filogénese.

Em condições de desdobramento em que qualquer outro filo inicial estaria há muito dissociado em espécies distintas, o verticilo humano, esse, desabrocha, «inteiro», como uma folha gigantesca cujas nervuras, por mais distintas que sejam, ficam sempre ligadas num tecido comum.

Mistura de genes. Anastomoses das raças em civilizações e corpos políticos ...

p. 263 A Humanidade apresenta-nos o espectáculo único de uma «espécie» capaz de realizar aquilo em que falhara qualquer outra espécie antes dela: não apenas ser cosmopolita, mas também cobrir a Terra, sem se romper, de uma única membrana organizada.

Até ao Homem, o mais que pudera realizar a vida, em matéria de associação .... a colónia, a colmeia, o formigueiro.

A partir do Homem, graças ao quadro ou suporte universal fornecido pelo Pensamento, é dado curso livre às forças de confluência. No seio deste novo meio, os próprios ramos de um mesmo grupo chegam a juntar-se. Ou melhor, soldam-se entre si ...

p. 264 Antropologicamente, etnicamente, socialmente, moralmente, nada se compreende do Homem e não se pode fazer nenhuma previsão válida, no que toca aos seus estados futuros, enquanto não se vir que a (evolução-selecção) luta pela vida (são) simples funções secundárias, (nele) doravante subordinadas a uma obra de coesão.

O enrolamento sobre si mesmo de um feixe de espécies virtuais em volta da superfície da Terra. Um modo inteiramente novo de Filogénese ... É o que eu chamei « a Planetização humana»

B - Megassíntese

p. 264 Coalescência dos elementos e coalescência dos ramos. Esfericidade geométrica da Terra e curvatura psíquica do Espírito, que se harmonizam para contrabalançar no Mundo as forças individuais e colectivas de dispersão e substituir-lhes a Unificação: eis finalmente a mola e o segredo da Hominização. Mas porquê e para quê a Unificação no Mundo ?

Para ver surgir a resposta a esta pergunta última, basta aproximar as duas equações que se estabeleceram gradualmente: Evolução = Ascensão da Consciência; Ascensão da Consciência = Efeito de União

p. 265-266 Positivamente, não vejo outra maneira coerentes, e portanto científica, de agrupar esta imensa sucessão de factos (o processo cósmico de organização), senão interpretando no sentido de uma gigantesca operação psico-biológica - como uma espécie de mega-síntese, - a «superordenação» a que todos os elementos pensantes da Terra se acham hoje individualmente e colectivamente submetidos. Cada vez mais complexidade e, portanto, cada vez mais consciência.

A Saída do Mundo, as portas do Futuro, a entrada no Super-Humano, não se abrem para diante a alguns privilegiados apenas, nem a um só povo eleito entre todos os povos! Elas não cederão senão a um empurrão de todos juntos, numa direcção em que todos juntos se podem reunir e completar numa renovação espiritual da Terra.

O ESPÍRITO DA TERRA

A - Humanidade

p. 267-268 À nossa volta, no espaço de algumas gerações, laços económicos e culturais de toda a espécie se estabeleceram e se vão multiplicando em progressão geométrica ...

Se as palavras têm um sentido, não será como que um grande corpo que está a nascer - com os seus membros, o seu sistema nervoso, os seus centros perceptores, a sua memória ...

Não se espere nenhum futuro evolutivo para o homem fora da sua associação com todos os outros homens ...

B - Ciência

p. 272 (nota) Poder-se-ia dizer que, pelo próprio facto da Reflexão humana (ao mesmo tempo individual e colectiva), a Evolução, tendo ultrapassado a organização físico-química dos corpos, adquire, ao ressaltar sobre si mesma, um novo poder de ordenação, concêntrico ao primeiro: a ordenação cognoscitiva do Universo. - Pensar o Mundo, com efeito, - e a Física começa agora a perceber isso - não consiste apenas em registá-lo, mas em lhe conferir uma forma de unidade de que, se não fosse pensado, ficaria privado. É aquilo a que eu chamei «ressalto humano» da Evolução (correlativo da Planetização e com ela conjugado).

... a marcha da Humanidade, prolongando a de todas as outras formas animadas, desenvolve-se, incontestavelmente, no sentido de uma conquista da Matéria posta ao serviço do Espírito.

O Pensamento a aperfeiçoar artificiosamente o próprio órgão do seu pensamento. A Vida a dar um novo salto para diante sob o efeito colectivo da sua Reflexão ...

Sim, o sonho de que se alimenta obscuramente a pesquisa humana consiste, no fundo, em conseguir dominar, para além de todas as afinidades atómicas ou moleculares, a Energia fundamental da qual todas as outras energias não são mais que as servas: agarrar, todos juntos, o leme do Mundo, lançando a mão à própria Mola da Evolução.

C - Unanimidade

p. 275 Uma colectividade harmonizada de consciências ... A Terra a cobrir-se de miríades de grãos de Pensamento ... até formar apenas ... um único e vasto Grão de pensamento.

PARA ALÉM DO COLECTIVO : O HIPERPESSOAL

p. 278 Uma impressão a superar: o desânimo

Utopia ?

[excepto se se] pensar numa absurdez radical do Universo ...

1 - A convergência do Pessoas e o Ponto Ómega

A - O Universo Pessoal

p. 283 Sob a influência destas impressões (do cientismo), dir-se-ia que perdemos, com a estima pela Pessoa, o próprio sentido da sua verdadeira natureza.....

A Evolução, como já reconhecemos e admitimos (prosseguindo o nosso raciocínio científico), é uma ascensão para a Consciência. E isto já não é contestado pelos mais materialistas, ou simplesmente pelos mais agnósticos, dos humanitários. Ela há-de, pois, culminar, para a frente, em alguma Consciência suprema (ou seja, reflectida sobre si mesma, isto é, Personalizada)

p. 284 Todas as nossas dificuldades e repulsas, quanto às oposições do Todo e da Pessoa, se dissipariam se tão-somente compreendêssemos que, pela sua estrutura, a Noosfera, e mais geralmente o Mundo, representam um conjunto, não apenas fechado, mas centrado. Porque contém e engendra a Consciência, o Espaço-Tempo é necessariamente de natureza convergente. Por consequência, se as seguimos no sentido conveniente, as suas camadas desmedidas devem inflectir-se algures para diante num Ponto - chamemo-lo Ómega - que as funda e as consume integralmente em si mesmo.

B - O Universo personalizante

p. 286-287 O que, por meio de invenções, educação, difusão de toda a espécie, emana de cada um de nós e passa para a massa humana tem uma importância vital.

Ora, deste essencial, nós não podemos evidentemente desfazer-nos em favor dos outros tal como daríamos uma capa ou passaríamos um archote: pois que somos nós a própria chama ...

... a concentração de um Universo consciente seria impensável se ao mesmo tempo que todo o Consciente ela não reunisse em si mesma todas as consciências ...

Não só conservação, mas exaltação dos elementos por convergência ! - a União diferencia.

p. 288 ao confluírem segundo a linha dos seus centros, os grãos de consciência não tendem a perder os seus contornos e a misturar-se. Acentuam, pelo contrário, a profundidade e a incomunicabilidade do seu ego.

p. 289 Nenhum espírito sem síntese ... À imagem de Ómega que o atrai, o elemento só se torna pessoal universalizando-se.

p. 289 (nota) E, inversamente, ele não se universaliza verdadeiramente senão superpersonalizando-se. Eis aqui toda a diferença (e o equívoco) entre a verdadeira e as falsas místicas políticas ou religiosas: estas destroem, aquela completa o Homem «perdendo-o em algo maior que ele próprio».

p. 290 É de centro para centro que (a síntese) deve operar ... em contacto mutuo e não de outra maneira ... Eis-nos por isso mesmo perante o problema do amor.

2 - O Amor-Energia

p. 290 Considerado na sua plena realidade biológica, o amor (quer dizer, a afinidade do ser com o ser) não é exclusivo do homem. Representa uma propriedade geral de toda a Vida ... [mesmo] num estado prodigiosamente rudimentar, sem dúvida, mas já nascente ... até na molécula.

p. 291 Sob as forças do Amor, os fragmentos do Mundo procuram-se para preparar o advento do Mundo.

p. 292 Só o amor, porque só ele prende e junta os seres pelo mais fundo deles mesmos, é capaz ... de completar os seres, enquanto seres, unindo-os.

p. 293 Sentido do Universo, sentido do Todo: diante da Natureza, perante a Beleza, perante a Música, esta nostalgia que se apossa de nós - esta expectação e este sentimento de uma grande Presença.

Afora os «místicos» e os seus analistas, como é que a psicologia pôde ignorar a tal ponto esta vibração fundamental, cujo timbre, para um ouvido experto, se distingue na base, ou melhor, no cimo de qualquer grande emoção ? Ressonância ao Todo: nota essencial da Poesia pura e da pura Religião.

p. 293-294 E agora ... como explicar que sempre e cada vez mais, aparentemente, nós vemos crescer à nossa a repulsa e o ódio ? Enquanto absorver ou parecer absorver a pessoa, o Colectivo destrói o amor que desejaria nascer. Como tal, o Colectivo é inamável. Que o Universo, pelo contrário, tome para nós, e para diante, um vulto e um coração, que se personifique ... e, imediatamente, na atmosfera criada por este foco, se desenvolverão as atracções elementares.

... é necessária e suficiente ... a realidade e a irradiação já actuais desse misterioso Centro dos nossos centros a que eu chamei Ómega.

3 - Os atributos do Ponto Ómega

p. 295 (o pensamento moderno) ... começa a ver que, na molécula, há decididamente mais que no átomo; na célula, mais que nas moléculas; no social mais que no individual; na construção matemática mais que nos cálculos e nos teoremas ... A cada grau ulterior de combinação, algo de irredutível ao elementos isolados emerge ... numa ordem nova.

p. 296 ...neste estado espírito, a ideia de que se prepararia, no topo do Mundo, qualquer Alma das almas, não é tão alheia como se poderia julgar às concepções actuais da razão humana. Ao fim e ao cabo, haverá para o nosso pensamento outra maneira de generalizar o Princípio da Energia ?

p. 297 Centro ideal, Centro virtual, nada de tudo isso é suficiente. ... Para ser supremamente atractivo, Ómega deve estar já supremamente presente.

p. 298 Autonomia, actualidade, irreversibilidade e, portanto, ao fim e ao cabo, transcendência: os quatro atributos de Ómega.

p. 299 Contrariamente as aparências ainda admitidas pela Física, o Grande Estável não se encontra em baixo - no infra-elementar - mas em cima - no ultra-sintético.

... O Mundo ... encontra a sua figura e a sua consistência natural gravitando, ao revés do provável, na direcção de um foco divino de Espírito que o atrai para diante.

Tornados centros e, portanto, pessoas, os elemento puderam enfim começar a reagir, directamente enquanto tais, à acção personalizante do Centro dos centros. Transpor a superfície crítica de hominização é, na realidade, para a consciência, passar do divergente ao convergente - quer dizer, de certa maneira, mudar de hemisfério e de pólo. Aquém desta linha crítica, «equatorial», a recaída no múltiplo. Além ... a evasão para fora da Entropia por reversão sobre Ómega.

p. 300 Uma a uma, à nossa volta, como um continuo eflúvio, as «almas» libertam-se, levando para o alto a sua carga incomunicável de consciência. - Uma a uma: e, no entanto, não isoladamente. Pois para cada uma delas não poderá haver, devido à própria natureza de Ómega, senão um único ponto possível de emersão definitiva: aquele em que a Noosfera, sob a acção sintetizante da união que personaliza, enrolando sobre si mesmo os seus elementos ao mesmo tempo que ela se enrola sobre si própria, atingirá colectivamente o seu ponto de convergência - no «Fim do Mundo».

A TERRA FINAL

p. 301 Por mais convergente que seja, a Evolução não pode completar-se sobre a Terra senão através de um ponto de dissociação. Assim se introduz ... o fantástico e inevitável acontecimento de que cada dia que passa mais nos aproximamos: o fim de toda a vida sobre o nosso globo - a morte do Planeta - a fase última do Fenómeno humano.

1 - Prognósticos a pôr de lado

p. 303 Invasões microbianas. Contra-evoluções orgânicas. Esterilidade. Guerras. Revoluções. (... Catástrofes cósmicas) Quantas maneiras possíveis de acabar ! - e que, bem vistas as coisas, seriam talvez preferíveis a uma longa senescência.

E, no entanto, na medida em que eles implicam uma ideia de acidente prematuro ou de declínio, julgo poder afirmar, apoiando-nos em tudo o que nos ensina o passado da Evolução, que não devemos recear nenhum desses múltiplos desastres.

2 - As linhas de aproximação

p. 305 No seu estado actual, não se compreenderia o Mundo, a presença nele do Reflexivo seria inexplicável ... Não uma paragem ... mas um derradeiro progresso, que virá na sua hora biológica ... Cada vez mais acima no improvável, de que nós saímos. Se queremos prever o fim do Mundo, é nesta direcção que temos de extrapolar o Homem e a Hominização.

Comparada com as camadas zoológicas que a precedem ... a Humanidade é tão jovem que se pode dizer recém-nascida. Entre a Terra final e a nossa Terra moderna estende-se, pois, verisimilmente, uma duração imensa, assinalada, não por um abrandamento, mas por uma aceleração e pelo desabrochamento definitivo, no sentido da flecha humana, das forças da Evolução.

Sob que forma e ao longo de que linhas - na hipótese, única aceitável, de êxito - poderemos nós imaginar que ... se vai desenvolver o Progresso ?

p. 306 Sob uma forma colectiva e espiritual, primeiro. - Desde o aparecimento do Homem, pudemos notar um certo abrandamento das transformações passivas e somáticas do organismo, em proveito das metamorfoses conscientes e activas do individuo tomado em sociedade. O artificial a revezar o natural. A transmissão oral ou escrita a sobrepor-se às formas genéticas (ou cromossómicas) da hereditariedade.

(não localizado no texto e, por isso, traduzido directamente) - A Noosfera tende a constituir-se num sistema fechado, em que cada elemento por si vê, sente, deseja e sofre as mesmas coisas que todos os outros simultaneamente.

Pode ser que, nas suas capacidades e na sua penetração individuais, o nosso cérebro haja atingido os seus limites orgânicos. Mas nem por isso pára o movimento. De Ocidente a Oriente, a Evolução acha-se doravante ocupada alhures, num domínio mais rico e mais complexo, a construir, com todos os espíritos reunidos, o Espírito. - Para lá das nações e das raças, a tomada em bloco, inevitável e já em curso, da Humanidade.

A - A organização da Pesquisa

p. 308 Uma Terra cujos «ócios» cada vez maiores e cujo interesse cada vez mais alerta acharão uma saída vital no acto de tudo aprofundar, de tudo ensaiar, de tudo prolongar.

B - A descoberta do objecto humano

p. 310-311O Homem ... aperceber-se-á enfim de que o Homem «objecto do conhecimento» é a chave de toda a ciência

No limite extremo das suas analises ... a Física já não sabe bem se o que ela detém é Energia pura, ou se, pelo contrário, é Pensamento o que lhe fica nas mãos.

p. 312 Até hoje, nós temos certamente deixado crescer ao acaso a nossa raça e insuficientemente reflectido sobre o problema de saber por que factores médicos e morais é necessário substituir, se as suprimimos, as forças brutais da selecção natural. No decurso dos séculos que hão-de vir, será indispensável que se descubra e que se desenvolva, à medida das nossas pessoas, uma forma de eugenismo nobremente humano. Eugenismo dos indivíduos - e, por conseguinte, eugenismo também da sociedade.

C - A conjugação Ciência-Religião

p. 313 Em aparência, a Terra Moderna nasceu de um movimento anti-religioso. O Homem que se basta a si mesmo. A Razão que se substitui à Crença ... o conflito entre a Fé e a Ciência ... Ora, à medida que a tensão se prolonga, é visivelmente sob uma forma muito diferente de equilíbrio - não eliminação, nem dualidade, mas síntese - que parece haver de resolver-se o conflito.

p. 315 Religião e Ciência: as duas faces ou fases conjugadas de um só acto total de conhecimento - o único que pode abarcar, para os contemplar, os medir e os completar, o Passado e o Futuro da Evolução.

O TERMO

p. 315-316 Progredindo sempre nas três direcções que acabamos de indicar e dispondo da enorme duração que lhe resta para viver, a Humanidade tem diante de si imensas possibilidades ... Desde o passo da Reflexão, graças às espantosas propriedades do «artificial» que, separando o instrumento do órgão, permite ao mesmo tempo ser intensificar e variar indefinidamente as modalidades da sua acção sem nada perder da sua liberdade - graças também ao prodigioso poder que possui o Pensamento de aproximar e de combinar num mesmo esforço consciente todas as partículas humanas, entrámos num domínio da Evolução inteiramente novo ... nós não temos ainda a menor ideia sobre a grandeza possível dos efeitos «noosféricos». A ressonância das vibrações humanas aos milhões! O produto colectivo e aditivo de um milhão de anos de Pensamento! Já alguma vez tentámos imaginar o que representam estas grandezas?

p. 316 (nota) ... ainda na Terra dos Aristóteles, Platões, Agostinhos? (porque não?) ... Mas o que é claro é que, apoiando-se umas nas outras ... as nossas almas modernas vêem e sentem hoje um Mundo que (nas suas dimensões, ligações e virtualidades) escapava a todos os grandes homens de outrora. Ora quem ousaria objectar que, a este progresso na consciência, não corresponde nenhum avanço na estrutura profunda do ser ?

p. 318 Pois bem, quando, por aglomeração suficiente de um número suficiente de elementos, este movimento, por natureza essencialmente convergente, houver atingido tal intensidade e tal qualidade que, para se unificar mais, a Humanidade, tomada em conjunto, deverá, como acontecera com as forças individuais do instinto, reflectir-se por usa vez «pontualmente» sobre si própria (quer dizer, neste caso, abandonar o seu suporte organoplanetário para se excentrar sobre o Centro transcendente da sua crescente concentração), será então, para o Espírito da Terra, o fim e o coroamento.

O fim do Mundo: inversão de equilíbrio, que desprende o Espírito, enfim completo, da sua matriz material para o fazer repousar doravante, com todo o seu peso, sobre Deus-Ómega.

O fim do Mundo: ponto crítico, ao mesmo tempo, de emergência e de emersão, de maturação e de evasão.

p. 319 Mas igualmente pode suceder que, segundo uma lei à qual nada escapou ainda no Passado, o Mal, crescendo ao mesmo tempo que o Bem, atinja o fim do seu paroxismo, também sob uma forma especificamente nova. Nada de cimos sem abismos.

Recusa ou aceitação de Ómega ?

... no decurso e até em virtude do processo que a reúne, a Noosfera, uma vez chegada ao seu ponto de unificação, clivar-se-ia em duas zonas, respectivamente atraídas por dois pólos antagónicos de adoração. Uma ultima vez ainda a ramificação.

SAÍDA

p. 321 ... Entre os que houverem tentadoler até ao fim estas paginas, muitos fecharão o livro insatisfeitos e perplexos, perguntando-se se acaso os levei a passear pelos factos, pela metafísica ou pelo sonho. Mas terão compreendido bem, os que assim hesitarem, as condições salutarmente rigorosas que a coerência do Universo, por todos agora admitida, impõe à nossa razão ?

Para dar um lugar ao Pensamento no Mundo, foi-me preciso interiorizar a Matéria; imaginar uma energética do Espírito; conceber, ao invés da Entropia, uma Noosgénese ascendente; dar um sentido, uma flecha e pontos críticos à Evolução; fazer que todas coisas se inflictam finalmente em Alguém.

... é possível que me tenha enganado em muitos pontos. Que outros procurem fazer melhor. Tudo o que eu desejava era fazer sentir, ao mesmo tempo que a realidade, a dificuldade e a urgência do problema, a ordem de grandeza e a forma a que a solução não pode escapar.

Capaz de conter a pessoa humana, só pode haver um Universo irreversivelmente personalizante.


 

 

O FENÓMENO CRISTÃO

 

(Não fazendo parte, embora, do resumo do Fenómeno Humano que aqui se transcreveu do francês e se cotou com os idênticos passos em português, retirados da edição da Livraria Tavares Martins, 1965, porque constitui uma parte de leitura indispensável para se apreender o alcance desta obra na sua dimensão metafísica, a seguir se transcreve o Epílogo da mesma, a que o autor deu o título de Fenómeno Cristão. O texto é retirado da citada edição portuguesa.)

Nem no jogo das suas actividades elementares que só a esperança de um imperecível pode pôr em movimento, nem no jogo das suas afinidades colectivas, que exigem, para se enlaçarem, a acção de um amor vitorioso, pode a Vida reflexiva continuar a funcionar e a progredir, a menos que brilhe por cima dela um pólo supremo de atracção e de consistência. Nem individualmente, nem socialmente, em razão da sua própria estrutura, poderá a Noosfera fechar-se sobre si própria a não ser sob a influência de um Centro Ómega.

Tal é o postulado a que nos levou logicamente a aplicação integral ao Homem das leis experimentais da Evolução.

Mas quem não vê a possível, ou mesmo provável repercussão sobre a experiência, desta conclusão inteiramente teórica numa primeira aproximação ?

Se Ómega fosse apenas o foco, longínquo e ideal, destinado a emergir, no fim dos tempos, da convergência das consciências terrestres, nada, fora desta própria convergência, poderia descobri-lo ainda aos nossos olhos. Na hora em que vivemos, nenhuma outra energia de natureza pessoal seria reconhecível sobre a Terra, além da que é representada pela soma das pessoas humanas.

Mas se, pelo contrário, como foi por nós admitido, Ómega já existe actualmente e opera no mais profundo da massa pensante, parece nesse caso inevitável que a sua existência se manifeste desde agora, por quaisquer indícios, à nossa observação. Para animar a Evolução no decurso dos seus estádios inferiores, o pólo consciente do Mundo não podia agir, e isso é natural, senão velado pela Biologia, sob forma impessoal. É-lhe possível agora irradiar de Centro para centros, pessoalmente, sobre a coisa pensante que nós viemos a ser pela hominização. Seria verisímil que o não fizesse ?

Ou toda a construção do Mundo aqui apresentada é vã ideologia, ou, algures à nossa volta, sob uma ou outra forma, algum excesso de energia pessoal, extra-humana, deve ser discernível, manifestando a grande Presença... se soubermos ver.

E aqui se descobre a importância, para a Ciência, do Fenómeno Cristão.

O Fenómeno cristão.

No termo de um estudo sobre o Fenómeno humano, esta expressão não é tomada ao acaso, ou por simples simetria de palavras. Ela procura, pelo contrário, definir sem equívoco o ponto de vista em que me situo.

Vivendo eu no seio do Cristianismo, poderiam suspeitar-me de querer introduzir artificialmente a sua apologia. Ora, ainda aqui, e na medida em que um homem pode separar em si próprio diversos planos de conhecimento, não é o crente convicto, é o naturalista que fala e pede que o oiçam.

O facto cristão está diante de nós. Tem o seu lugar entre as outras realidades do Mundo.

Como é que, pela substância do seu Credo, primeiro, pelo seu valor de existência, em seguida, e, enfim, pelo seu extraordinário poder de crescimento, ele me parece trazer às perspectivas de um Universo dominado por energias de natureza pessoal a confirmação crucial de que precisamos - eis o que eu gostaria de mostrar.

1. Eixos de Crença

Para aqueles que só de fora o conhecem, o Cristianismo parece desesperadamente complicado. Na realidade, considerado nas suas linhas mestras, ele contém uma solução do Mundo extremamente simples e espantosamente ousada.

No centro, e de tal modo aparente que nos desconcerta, a afirmação intransigente de um Deus pessoal: Deus-Providência, que conduz o Universo com solicitude, e Deus-Revelador, que se comunica ao Homem no plano e pelas vias da inteligência. Ser-me-á fácil, após tudo o que tenho dito, fazer sentir daqui a pouco o valor e a actualidade deste personalismo tenaz, não há muito ainda olhado como obsoleto e condenado. O que importa fazer notar neste momento é como, no coração dos fiéis, tal atitude dá lugar e se alia sem esforço a tudo o que há de grande e de são no Universal.

No decurso da sua fase judaica, o Cristianismo pôde julgar-se a religião particular de um povo. Mais tarde, submetido às condições gerais do conhecimento humano, pôde imaginar que o Mundo era pequeno de mais à sua volta. No entanto, mal se constituiu, tendeu sempre a englobar nas suas construções e nas suas conquistas a totalidade do sistema que ele chegava a conceber.

Personalismo e universalismo.

Sob que forma estes dois caracteres acharam meio de se unirem na sua teologia ?

Por razões de comodidade prática, e porventura também de timidez intelectual, a Cidade de Deus é muitas vezes descrita nos livros de devoção em termos convencionais e puramente morais. Deus e o Mundo que ele governa: uma vasta associação de essência jurídica, concebida à maneira de uma família ou de um governo. Bem diferente é a perspectiva fundamental de que se alimenta e donde jorra desde as origens a seiva cristã. Por falso evangelismo, julga-se muitas vezes honrar o Cristianismo reduzindo-o a qualquer doce filantropia. Nada se compreenderá dos seus «mistérios», se não virmos nele a mais realista e a mais cósmica das fés e das esperanças. Uma grande família, o Reino de Deus ? Sim, num certo sentido. Mas, noutro sentido também, uma prodigiosa operação biológica: a da Incarnação redentora.

Criar, completar e purificar o Mundo, já o lemos em S. Paulo e em S. João, é, para Deus, unificá-lo unindo-o organicamente a si próprio . Ora, como o unifica ele ? Imergindo-se parcialmente nas coisas, fazendo-se «elemento», e depois, graças a este ponto de apoio achado no âmago da Matéria, tomando a direcção e pondo-se à cabeça do que chamamos agora Evolução. Princípio de vitalidade universal, Cristo, porque surgiu homem entre os homens, colocou-se em posição e está desde sempre em vias de curvar sobre si próprio, de depurar, de dirigir e de sobreanimar a ascensão geral das consciências em que ele se inseriu. Por uma acção perene de comunhão e de sublimação, agrega a si próprio o psiquismo total da Terra. E quando tiver assim reunido e transformado tudo, alcançando num gesto final o foco divino donde jamais saiu, fechar-se-á sobre si mesmo e sobre a sua conquista. E então, como diz S. Paulo, «já não haverá senão Deus, todo em todos». Forma superior de «panteísmo», na verdade , sem vestígio empeçonhado de mescla nem de aniquilamento. Expectativa de unidade perfeita, na qual cada elemento, porque nela mergulha, encontrará, ao mesmo tempo que o Universo, a sua consumação.

O Universo a completar-se numa síntese de centros, em perfeita conformidade com as leis da União. Deus, Centro do centros. Nesta visão final culmina o dogma cristão. - Tão exactamente e tão perfeitamente o ponto Ómega que, sem dúvida, jamais eu teria ousado encarar ou formular racionalmente a sua hipótese se, na minha consciência de crente, não houvesse encontrado não só o seu modelo especulativo, mas também a sua realidade viva.

2. Valor de Existência

É relativamente fácil arquitectar uma teoria do Mundo. Mas forçar artificialmente o nascimento de uma religião é algo que ultrapassa as forças individuais. Platão, Espinosa, Hegel puderam desenvolver concepções que rivalizam, pela sua amplitude, com as perspectivas da Incarnação. E no entanto, nenhuma destas metafísicas chegou a transpor os limites da ideologia. Uma após outra puderam, talvez, iluminar os espíritos, mas sem nunca conseguirem gerar a Vida. O que, para um «naturalista», constitui a importância e o enigma do Fenómeno cristão é o seu valor de existência e de realidade.

Real, o Cristianismo é-o, em primeiro lugar, pela amplitude espontânea do movimento que ele logrou criar na Humanidade. Dirigindo-se a qualquer homem e a todas as classes de homens, tomou logo o seu lugar entre as correntes mais vigorosas e mais fecundas que até hoje registou a história da Noosfera. Quer adiramos a ele, quer dele nos separemos, não serão sensíveis por toda a parte na Terra moderna a sua marca e a sua influência persistente ?

Valor quantitativo de vida, certamente, avaliado pela dimensão do raio de acção. Mas sobretudo valor qualitativo, acrescentarei eu, que se exprime, como no caso de qualquer progresso biológico, pelo aparecimento de um estado de consciência especificamente novo. E aqui eu penso no amor cristão.

O amor cristão, coisa incompreensível para os que nunca o provaram. Que o infinito e o intangível possam ser amáveis; que o coração humano possa bater pelo seu próximo com uma verdadeira caridade: isto parece a muita gente que eu conheço simplesmente impossível - e quase monstruoso. E no entanto, que mais não seja ao registar brutalmente os resultados que ele não cessa de produzir à nossa volta, como duvidar de que, baseado ou não numa ilusão, este sentimento existe e é mesmo anormalmente poderoso ? Não será um facto positivo que, há vinte séculos para cá, milhares de místicos tenham ido buscar à sua chama ardores tão apaixonados que deixam ficar muito para trás, em brilho e pureza, os impulsos e as devoções de qualquer amor humano ? Não será ainda um facto que, por o terem experimentado, outros milhares de homens e mulheres renunciem todos os dias a qualquer outra ambição e a qualquer outra alegria que não seja a de se lhe abandonarem laboriosamente cada vez mais ? E não será, enfim, um facto - esse garanto-o eu - que, se o amor de Deus viesse a extinguir-se na alma dos fiéis, o enorme edifício de ritos, de hierarquia e de doutrinas que a Igreja apresenta, se perderia instantaneamente na poeira de que saiu ?

Na verdade, que, numa região apreciável da Terra, tenha surgido e se haja alargado uma zona de pensamento na qual um verdadeiro amor universal não só foi concebido e pregado, mas também se revelou psicologicamente possível e praticamente operante - eis para a Ciência do Homem um fenómeno de importância capital - tanto mais capital que o movimento, longe de afrouxar, parece querer aumentar ainda em velocidade e intensidade.

3. Poder de Crescimento

Para a quase totalidade das religiões antigas, a renovação das concepções cósmicas que caracteriza o «espírito moderno» provocou uma crise de que, se ainda não morreram, se pode prever que nunca mais sararão. Intimamente ligadas a mitos insustentáveis, ou envolvidas numa mística de pessimismo e de passividade, é-lhes impossível ajustarem-se às imensidades precisas ou às exigências construtivas do Espaço-Tempo. Já não correspondem às condições da nossa Ciência, nem da nossa Acção.

Ora, sob o choque que faz rapidamente desaparecer os seus rivais, o Cristianismo, que, à primeira vista, poderíamos julgar também abalado, dá, pelo contrário, todos os sinais de um novo arranque para a frente. Pois, devido precisamente às novas dimensões tomadas aos nossos olhos pelo Universo, ele revela-se simultaneamente mais vigoroso em si e mais necessário ao Mundo do que nunca.

Mais vigoroso. Para viverem e se desenvolverem, as concepções cristãs necessitam de uma atmosfera de grandeza e de união. Quanto mais vasto for o Mundo, mais orgânicas serão as suas reflexões interiores, e mais triunfarão as perspectivas da Incarnação. E aí está o que os crentes começam, não sem surpresa, a descobrir. Assustado um instante com a Evolução, o cristão percebe agora que esta lhe oferece simplesmente um meio magnífico de se sentir mais de Deus e de se lhe entregar mais ainda. Numa Natureza de estofo pluralista e estático, a dominação universal de Cristo podia ainda, em rigor, confundir-se com um poder extrínseco e sobreimposto. Que urgência, que intensidade não revela, num Mundo espiritualmente convergente, esta energia crística ? Se o Mundo é convergente, e se Cristo ocupa o seu centro, nesse caso a Cristogénese de S. Paulo e de S. João não é mais nem menos que o prolongamento, ao mesmo tempo esperado e inesperado, da Noogénese, em que, para a nossa experiência, culmina a Cosmogénese. Cristo reveste-se organicamente da própria majestade da sua criação. E por isso mesmo é, sem metáfora, através de toda a extensão, de toda a espessura e de toda a profundidade do Mundo em movimento que o homem se vê capaz de experimentar e descobrir o seu Deus. Poder literalmente dizer a Deus que o amamos, não só com todo o nosso corpo, com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, mas também com todo o nosso Universo em vias de unificação, eis uma oração que só se pode fazer no Espaço-Tempo.

Mais necessário. Dizer do Cristianismo que, apesar de todas as aparências contrárias, ele se aclimata e cresce num Mundo prodigiosamente alargado pela Ciência, seria ver apenas metade do que se passa. A Evolução vem infundir de certo modo um sangue novo nas perspectivas e nas aspirações cristãs. Mas, em contrapartida, a fé cristã não estará destinada, ou até já pronta, a salvar, ou mesmo a revezar, a Evolução ?

Nenhum progresso se deve esperar sobre a Terra, como tentei mostrar, sem a primazia e o triunfo do Pessoal no cume do Espírito. Ora, no momento actual, e sobre a superfície inteira da Noosfera, o Cristianismo representa a única corrente de Pensamento suficientemente audaciosa e progressiva para abarcar praticamente e eficazmente o Mundo num gesto completo e indefinidamente perfectível, em que a fé e a esperança se consomem numa caridade. Só ele, absolutamente só ele sobre a Terra moderna, se mostra capaz de sintetizar num acto vital o Todo e a Pessoa. Só ele pode levar-nos não apenas a servir, mas a amar o formidável momento que nos arrasta.

Que quer dizer, pois, tudo isto, senão que ele preenche todas as condições que temos o direito de esperar de uma Religião do Futuro, e, portanto, que doravante por ele passa verdadeiramente, como ele próprio o afirma, o eixo principal da Evolução ?

E agora resumamos a situação:

1. Considerando objectivamente, a título de fenómeno, o movimento cristão, pelo seu enraizamento no Passado, e pelos seus desenvolvimentos incessantes, apresenta os caracteres de um filo;

2. Situado numa Evolução interpretada como uma ascensão de Consciência, este filo, pela sua orientação no sentido de uma síntese à base de amor, progride exactamente na direcção presumida para a flecha da Biogénese;

3. No impulso que guia e sustenta a sua marcha para a frente, esta flecha ascendente implica essencialmente a consciência de se achar em relação actual com um Pólo espiritual e transcendente de convergência universal.

Para confirmar a presença, à cabeça do Mundo, daquilo a que chamámos o ponto Ómega , não estará aqui precisamente a contraprova que esperávamos ? O raio de sol furando as nuvens ? A Reflexão, sobre o que sobe, do que já está em cima ? A ruptura da nossa solidão ? A influência perceptível, no nosso Mundo, de um outro e supremo Alguém? ... O Fenómeno cristão, que surge no âmago do Fenómeno social, não será precisamente isso ?

Perante tanta perfeição na coincidência, ainda que eu não fosse cristão, mas tão-somente homem de ciência, creio que me faria tal pergunta.

 

Pequim, Junho de 1938 - Junho de 1940